Diagnóstico do design brasileiro – uma resenha

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Por Gabriel Patrocínio

O Ministério do Desenvolvimento (MDIC) lançou no início de junho o Diagnóstico do Design Brasileiro, estudo encomendado pela APEX ao Centro Brasil Design. Não é a primeira vez que se tenta fazer um mapeamento da atividade de design no país – há antecedentes do próprio Centro de Design Paraná para o Programa Brasileiro de Design (1,2) (do próprio MDIC) e também do SEBRAE (3), entre outras iniciativas. Desta vez, no entanto, ao invés de mapear a demanda ou as instituições e ações promocionais, a iniciativa do MDIC aprofundou-se mais, pretendendo fazer um diagnóstico amplo do setor que permitisse iniciar um processo de construção de políticas nacionais de design.

Um diagnóstico deste porte, de um setor praticamente virgem em termos de estatísticas e estudos, e com a dificuldade de ser precisamente definido e encontrado será sempre parcial, sem nenhum demérito para o estudo ou para a equipe. Parcial pela impossibilidade de se fazer um diagnóstico com 100% de abrangência de um segmento fragmentado e difuso, inclusive pela enorme extensão territorial do nosso país. Parcial por ainda estarem sendo construídas, em todo o mundo, as métricas para se avaliar o setor. Parcial por ter a ousadia de ser o primeiro, por propor e experimentar novas métricas para se buscar entender o segmento.

Em se entendendo essas limitações, é preciso que se diga que nunca foi feito estudo com tamanha abrangência e profundidade sobre o design brasileiro. A equipe do Centro Brasil Design, que vem se especializando e se notabilizando no país e internacionalmente há cerca de quinze anos (desde 1999), certamente era a mais habilitada instituição brasileira para realizar esta tarefa. O empenho, a dedicação e a capacidade desta equipe resultam num trabalho de referência histórica para o design brasileiro, que servirá de base a muitos outros estudos que certamente virão.

No que diz respeito às suas intenções originais, sabe-se que o trabalho deverá servir como base para estudos mais específicos, que deverão propor estratégias e caminhos para uma política nacional e para políticas regionais de design.

QUAL A IMPORTANCIA DE POLITICAS DE DESIGN PARA O BRASIL?

O design é reconhecido hoje por governos de diversos países pelo seu potencial de fomentar inovação e desenvolvimento. A União Europeia nestes últimos anos tem apontado aos seus países membros a importância de se investir em políticas de fomento ao design e inovação. Design passou a ser uma palavra-chave para estes países. No Brasil, este potencial vem sendo percebido (ainda que lentamente), e começam a tomar forma ações para melhor compreender e fazer uso desta ferramenta.

O potencial do design vai além do seu uso tradicional para promover a competitividade industrial. Contribuir para a solução de problemas sociais, nas áreas de saúde, segurança, educação, meio ambiente – tudo isso está no escopo das habilidades transdisciplinares e catalizadoras de soluções que são características do design. Essa ‘descoberta do design’ desponta como um importante resultado oferecido à sociedade pelo estudo apresentado pelo Centro Brasil Design.

O estudo aponta ainda o papel do governo em continuar promovendo estudos e levantamentos de dados sobre o setor, que venham alimentar o planejamento e a sistematização de ações na área, aproveitando todo esse potencial. Trata-se antes de tudo de uma forma de gestão de design centralizada numa agência nacional, nos moldes do que fazem os países que vêm investindo em políticas de design a décadas, e adaptado às características e dimensões continentais do nosso país. Este organismo deverá permitir alinhamento de agendas, atendimento ordenado a demandas, exploração de atributos de excelência e encaminhamento de demandas e correções necessárias – como, por exemplo, no atendimento mais objetivo pela academia de demandas efetivas e atuais da indústria e da sociedade em geral.

QUAL O CONTEÚDO DO ESTUDO?

Estruturado em quatro partes, o estudo faz inicialmente uma avaliação sobre como as indústrias brasileiras estão entendendo e utilizando o design, traçando a seguir um panorama do setor de design no país, seguindo com um apanhado de referências internacionais para o setor, e finalizando com o estabelecimento de um conjunto de cenários possíveis para o futuro do setor.

Partindo de uma proposta metodológica simples e clara – até mesmo para poder enfrentar as dificuldades esperadas em se conseguir dados sobre o setor – o estudo utiliza ferramentas avançadas de análise de gestão de design e inovação (como o International Design Scoreboard e a Design Management Staircase) para traçar o retrato do design na indústria brasileira, a partir de nove segmentos selecionados. Isso permite estabelecer um entendimento inicial sobre o uso do design por esses diversos setores, e por extensão, pode-se falar no uso geral do design pelas empresas brasileiras. A análise dos dados permite ainda comparar a situação do nosso país com outros dois países da América Latina sobre os quais existem alguns dados disponíveis (Uruguai e Colômbia) e com outros países do mundo, permitindo uma avaliação preliminar da nossa competitividade em design.

Ao analisar o mercado de design brasileiro, o estudo aponta fragilidades na “baixa formalização e falta de organização do setor”. Aponta-se ainda a falta de estudos sobre o design agindo sobre o mercado, resultando numa aguda falta de dados para que se possa refletir adequadamente sobre o setor. Ainda assim o estudo traça um excelente panorama da inserção do design no país, o crescimento apresentado pelo setor nos últimos anos, e as ações governamentais que procuram dar suporte à este crescimento. Os modelos de negócios adotados pelo mercado de design no Brasil, as relações entre design e novas tecnologias, e os componentes da cadeia produtiva do design são também pormenorizados no estudo. Ao analisar as patentes depositadas no país, o estudo levanta dados preocupantes no que diz respeito ao baixo número de registros feitos por empresas brasileiras frente ao elevado número de depósitos de patentes feito no Brasil por empresas estrangeiras – entre os dez maiores depositantes de registros de desenho industrial no país, há somente duas empresas brasileiras.

Outra grande contribuição do estudo está no tema do perfil do designer, sua formação e habilidades demandadas pelo mercado atual e futuro. Formação profissional, publicações, relações entre academia e mercado, produção de conhecimento, analise de distribuição regional no território nacional, são alguns dos temas abordados. Contribuições trazidas de programas como o Defining the Designer of 2015 (AIGA e Adobe) e reflexões de pensadores como John Maeda pontuam o texto. Vale uma boa leitura e reflexão sobre o tema.

Outro quadro que demanda reflexão é o tema das estruturas de financiamento ao design existentes no país – que sem dúvida superam as expectativas de leitores designers. Certamente é mais do que imaginamos, e demonstra que talvez o segmento deva se preparar melhor para fazer uso dos recursos que estão sendo mobilizados, além de cobrar muitas vezes maior clareza ou adequação dos programas às realidades nacionais ou regionais. Comparar as demandas do mercado, a oferta de profissionais, e a disponibilidade de recursos é um interessante exercício a ser feito, e para o qual o estudo fornece dados amplamente. Todos esses dados são considerados à luz do conceito de sistema nacional de design, introduzido pelo estudo a partir de conhecimento gerado recentemente sobre o tema em outras regiões do mundo. O estudo destaca ainda a importância do reconhecimento da profissão de designer nesse contexto, e da criação de uma agência nacional que continuamente desenvolva estudos, estruture e implemente políticas para o setor, centralizando e distribuindo dados e recursos.

Toda a extensão dos dados coletados a analisados e das informações oriundas de diversas fontes permite traçar, ao final do estudo, três cenários hipotéticos para o design no Brasil – conservador, moderado e otimista. O primeiro, mais do que conservador, é na verdade um cenário bastante pessimista, até porque o estudo permite enxergar a clara evolução do setor de design ao longo dos últimos anos, e seria extremamente negativo considerar que poderíamos regredir após tantas conquistas. Que seja então o cenário otimista a prevalecer, com um crescimento que nos permita alcançar posições maiores e melhores tanto internamente quanto no âmbito da competitividade comercial e do desenvolvimento do país.

COMO ESSE CONTEÚDO PODE SER UTILIZADO?

Universidades, associações, instituições ligadas ao design devem especialmente fazer uso do conhecimento, das ferramentas, e dos resultados deste estudo. Governos locais – estados e municípios – devem usar este estudo como motivador para estabelecer mecanismos que permitam usar com maior frequência o design como ferramenta de transformação econômica, política e social. Um bom começo seria promover debates sobre o seu conteúdo e sobre como aperfeiçoar os indicadores que aparecem no estudo. O que queremos? Para onde queremos caminhar? Qual o papel que o design pretende exercer na sociedade? Estamos preparados para exercer esse papel transformador? O que nos falta para isso?

“Gui Bonsiepe diz desde os anos setenta que os designers precisam aprender a se comunicar com o governo, e John Heskett diz que nós precisamos aprender a produzir em termos políticos – e política é completamente diferente de projetos de design.”

Eu particularmente acredito que nos falta bastante. Gui Bonsiepe diz desde os anos setenta que os designers precisam aprender a se comunicar com o governo, e John Heskett diz que nós precisamos aprender a produzir em termos políticos – e política é completamente diferente de projetos de design. Produzir em termos políticos significa entender que precisamos ceder, precisamos buscar consenso, precisamos buscar realizar o possível, sem que seja necessário deixarmos de ter um ideal. Mas é necessário entender que não podemos, em termos políticos, rejeitar tudo que não seja o nosso ideal. Até mesmo porque o nosso ideal pode não ser o ideal de todos.

Finalizando, o Diagnóstico do Design Brasileiro inaugura uma nova era para o entendimento do design como ferramenta de desenvolvimento e inovação no Brasil. Cabe a nós designers aprender a usar estas novas ferramentas de gestão que passamos a dispor para estabelecer processos de colaboração com o governo, o mercado e a sociedade. Não podemos esperar que apenas o governo faça a sua parte – precisamos entender muito bem qual a nossa responsabilidade deste processo, e nos engajarmos proativamente para promover as transformações que acreditamos que o design pode trazer para a sociedade.

Matéria extraída do site ADG Brasil – Associação dos Designers Gráficos do Brasil.