Supermercados investem em design de embalagens para marcas próprias

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Entre os 15, 20 mil itens em média nos supermercados, ou até mais de 50 mil nos hipermercados, a organização de cada produto na prateleira tem preponderância absoluta da embalagem. Na logística, no suporte e no visual, ela tem papel fundamental.  Também na comunicação, na função de anunciar a existência daquele produto na prateleira. Por isso, a embalagem tem de ser multifuncional: resistente, bonita e comunicativa. Aliás, já imaginou como seria vender frango no pote ou arroz na garrafa plástica? Por isso, a embalagem tem de ser também adequada ao produto e à seção.

Além disso, a evolução dos supermercados focados na prestação de serviços ao consumidor, na “gourmetização” do segmento requer mais protagonismo das embalagens. Os novos hábitos das pessoas, como a procura por lanches rápidos no ponto de venda, demandam embalagens próprias para essas finalidades. “As categorias começam a criar ramificações buscando trazer um diferencial para o consumidor em conveniência, mas aproveitando aquelas oportunidades em que ele pede um produto diferenciado, como um integral ou com aspectos de saudabilidade”, disse a diretora executiva da Associação Brasileira da Indústria da Embalagem (ABRE), Luciana Pellegrino.

Segundo ela, o segmento de alimentos resfriados vem puxando o crescimento de novidades, como um iogurte que com uma embalagem diferenciada tem sua vida útil aumentada em cinco horas mesmo fora da prateleira refrigerada ou da geladeira, além da portabilidade para consumo porque dispensa colher e já que vem no formato stand up pouch com bico.  “É uma conveniência a mais para ao consumidor, para ter um produto a mais que possa levar com ele na bolsa para consumo a qualquer hora do dia, um lanche escolar ou para uma viagem, então é uma forma de ilustrar como a indústria vai entendendo as dinâmicas do consumidor, qual é sua rotina, de que ele precisa e vai trazendo embalagens que se encaixem nessas necessidades” disse Luciana.

Marcas próprias

Na rede Via Real, central de negócios sediada em Guanhães e com 12 lojas na região, a criação de embalagens segue orientação do manual de comunicação da rede. Para empacotar os itens de marca própria de arroz, feijão e café, o fornecedor entrega o produto já com a marca da rede. Porém as embalagens são submetidas à avaliação dos diretores da central antes de embalar os produtos que vão para os supermercados da rede. As artes são aprovadas nas reuniões de diretoria da central de acordo com o que dita o manual de comunicação.

Segundo o gestor, Tiago Soares Peçanha de Oliveira,  o manual de comunicação estabelecendo todas as normas para uso da imagem dos produtos e da rede   facilita as demais etapas. “Esse processo é muito simples porque não fazemos as embalagens, a gente já tem o manual de comunicação interna que prevê algumas marcas próprias” disse.   Após a aprovação da marca e do pedido ao parceiro o próximo passo é só receber os produtos no depósito central.  “O resto tudo é por conta do parceiro que fornece o produto. A gente já negocia o preço do serviço com o produto colocado aqui dentro” confirma o gestor.

Na União dos Supermercados do Sul de Minas (Unissul), maior central de negócios de Minas Gerais em faturamento, a embalagem exerce papel fundamental para a promoção dos produtos Classe A, a marca própria da rede. Para definir o design e a embalagem mais adequada, a rede tem um comitê que avalia as artes desenvolvidas a partir de um padrão estabelecido e enviadas pelo prestador de serviço para avaliação. Neste processo, cada fornecedor elabora duas alternativas de cada produto.

Segundo o gestou da Unissul, Cláudio Luís Vallim, a embalagem é sim um elemento a mais para ajudar na decisão de compra do consumidor. “Além do papel de informar o consumidor sobre questões de composição, nutrientes, etc., as embalagens dos produtos devem ter visuais atraentes”, analisa.

O diversificado mix de produtos, num total de 110 SKUs como  achocolatados, arroz, água sanitária, iogurte, requeijão cremoso e sorvete, demanda também as mais diversas embalagens que seguem o padrão de cada produto e mercado. “Sempre procurando as melhores referências, como por exemplo, a batata palha que é feita na embalagem pouch, mistura para bolo no sistema de quatro soldas, etc.” ilustra Vallim.

Prevenção de perdas

Em um país em que as perdas representaram a cifra de R$ 7,1 bilhões somente no segmento supermercadista, as embalagens têm papel fundamental na proteção dos alimentos para reduzir essas cifras. É de se imaginar, por exemplo, que um tomate embalado de forma adequada teria vida útil muito maior. Pode-se questionar quanto ao preço de uma embalagem para produto único, mas a redução de perda total do alimento seria muito mais significativa.

Uma das mais marcantes comprovações de o que a embalagem representa para o produto são as caixas de madeiras usadas no transporte de hortifrútis.   Algumas culturas podem ter perdas de até 30% no trajeto do campo à mesa do consumidor, segundo estudos da Ceasaminas. E a maior parte dessa perda é associada à caixa inadequada, oriunda da logística de querosene na segunda Guerra Mundial.

Segundo Luciana, da ABRE, a prevenção de perdas é um tema que está muito na pauta do varejo, da indústria e da própria indústria da embalagem tanto que em 2016, no prêmio Abre da Embalagem Brasileira, a entidade criou uma categoria “Soluções de embalagem para redução de perdas e desperdício de alimentos” para tentar incentivar soluções e funcionalidades e tecnologias que ajudem a reduzir as perdas e desperdícios. “Essa é a função da embalagem. Ela é um meio, não um fim. A primeira função é preservar o produto”, disse Luciana.

Outra forma de evitar perdas usando as embalagens são os produtos porcionados, porque quando se abre uma embalagem maior, o produto fica exposto a luz, umidade e aos mais diversos contaminantes. “Muitas vezes a embalagem tem que guiar o consumidor para atitude correta pela própria funcionalidade”, ressalta Luciana.

Tendências

Segundo o fundador da OBAH Design, Antônio Eduardo, o valor subjetivo dos produtos e o propósito das marcas precisam estar cada vez mais alinhados aos valores pessoais do consumidor. E esses valores, afirma, são passados na embalagem. “Na hora de pensar em um produto para criar uma embalagem, funciona sempre responder às seguintes perguntas: vai melhorar a vida das pessoas? Vai facilitar a resolução dos problemas? Vai ficar tão caro que inviabilize a lucratividade do produto e/ou serviço?”, pondera.

Na opinião dele, a criação que não gera vendas ou maior lembrança de marca ou que não melhora a vida das pessoas, não serve. Ele avalia que é fundamental destacar também que todo processo de criação de uma embalagem passa por uma longa e profunda pesquisa de mercado, da aceitação da marca, do posicionamento do produto, da concorrência e, principalmente, do público consumidor daquele produto.  É preciso  perceber as tendências, as questões mais profundas  para a vida das pessoas e traduzir na embalagem. “Tendências mais profundas demandam mais inteligência, mais pesquisa de mercado e mais alinhamento de processos, além da criatividade. O pensamento final tem que ser sempre em proporcionar a melhor experiência de consumo para o público” sugere.

Quando se pensa nas tendências e no futuro da embalagem, o que está mais claro no horizonte são a atenção à sustentabilidade ambiental e o uso da tecnologia para melhorar o produto e reduzir custos. “Materiais 100% verdes, a conscientização ambiental têm trazido mudanças importantes no mundo do design de embalagens, com a busca por materiais recicláveis e de descarte facilitado. Hoje é preciso pensar em toda a cadeia produtiva, desde a matéria-prima do produto, a fábrica, transporte, embalagem, utilização e até seu descarte final”, ilustra Eduardo.

Matéria extraída do site da AMIS.